08/09/2013

MUITO LEGAL - HISTORIAS DE RECEPCIONISTA DE MOTEL

 
“De cada dez casais que vêm aqui, em oito é a mulher que paga.” Isso não é resultado de nenhuma pesquisa ou estudo, mas quem afirma isso presencia esta situação todos os dias do ano. “Os homens dão o cartão, aí dá operação não autorizada e eles dizem que é culpa da máquina. Eu pego meu cartão de débito, passo dez centavos e mostro que funciona, sim. Eles dão outros cartões, nenhum passa. No final, a mulher dá o dela e paga”, diz Luciana Lopes, recepcionista durante a noite do Motel Mykonos, na zona sul de São Paulo, desde 2007.

Juvenal Avelino, gerente durante o período da tarde, faz coro às declarações das colegas. “É isso mesmo. Teve um cara que sempre dava o golpe e fazia a mulher pagar, até que um dia ela não tinha dinheiro. Eu o obriguei a deixar o estepe do carro aqui”, diz Avelino, com o semblante sério, deixando claro que ninguém sai dali sem pagar.

Luciana e Juvenal também dividem em comum, além do local onde trabalham e da idade – ambos na faixa dos 30 e poucos anos – o interesse pelo Direito, mas estudam com objetivos diferentes. A primeira quer terminar a faculdade e prestar concurso para Promotoria, o segundo espera iniciar sua carreira como advogado em São Paulo, para depois voltar para Natal, de onde saiu há 12 anos, e abrir um escritório. “As meninas com quem estudo riem quando eu conto as histórias daqui”, se diverte o gerente. “Já me falaram para escrever um blog com elas”, completa a recepcionista.

E a julgar pelo o que a reportagem do iG ouviu em pouco mais de cinco horas ao lado de Luciana, Juvenal e outros três funcionários do quadro de cerca de 40 do motel, não é exagero dizer que um blog seria uma forma apropriada para armazenar tantas histórias, algumas cômicas, outras que viraram caso de polícia, literalmente – selecionamos as dez melhores, descritas mais abaixo.

FICHA SUJA NO MOTEL

Segundo a recepcionista, o caso mais frequente no motel é o de casais que entram com outras pessoas escondidas dentro do carro. Luciana explica que o preço é fixo para duas pessoas, mas que diárias extras são cobradas quando há mais que isso.

“Eu percebo na recepção. A pessoa te olha de forma diferente, parece criança que acaba de fazer arte. Geralmente elas não abrem a janela inteira, os vidros são escuros e a parte de trás de carro fica mais baixa. Quando é assim eu aviso para verificarem depois se tem mais gente”, conta.

“Um funcionário fica de olho e vê por baixo do portão. Aí é comunicado a eles que nós sabemos que há mais de duas pessoas, uns perguntam como a gente sabe, outros batem o pé e dizem que não tem. A gente negocia o valor cobrado depois”, explica Juvenal. Ele diz ainda que quem apronta seguidas vezes acaba ficando com a ficha suja no motel. “É aquele cliente que sempre vem e dá problema. Ele reclama, não quer pagar, bota defeito em tudo. A gente já nega na entrada. Tem motel que é mais rígido, e se a recepção deixar passar, o sistema alerta na hora que você põe o RG ou a placa do carro. É a chamada lista negra.”



Uma recepcionista cuida da entrada, outra da saídas que mais deram problemas ao Mykonos acabaram contemplados em um mural acima da janela onde as recepcionistas atendem os clientes que chegam. Luciana destaca a cópia em preto e branco de um RG e explica os motivos dele estar ali. “Essa aqui é louca. Ela é muito bonita pessoalmente, fala bem, tem uma ótima aparência, só que quando ela vem, é problema. Ela bebe todas as bebidas alcoólicas e começa a quebrar tudo. Aí chega um cara que diz ser namorado dela. Ela começa a bater nele, é aquele quebra pau. Depois ele quer ir embora, ela liga gritando e fala para não deixar. Agora a gente colocou a foto aqui para evitar.”

Caso você venha a quebrar alguma coisa dentro do quarto – que não seja a televisão ou o ar condicionado –, peça desculpas e admita o acidente na hora de deixar o quarto, você pode ser “perdoado”. “Se o sujeito usa o bom senso, aí eu nem cobro nada. Essa é uma dica”, diz Juvenal.

NAQUELES DIAS: “PENSEI QUE ALGUÉM TINHA MORRIDO”
Há clientes que deixam algumas sujeiras para trás também, mas não em forma de reclamações ou copos e pratos quebrados. Em forma de lençóis e toalhas manchados, principalmente quando a mulher está menstruada. “Acontece muito. Se for pouco sangue a gente tira com produto, mas eu já cheguei a me assustar e pensar que alguém tinha morrido no quarto. Nesses casos a gente cobra uma lavagem especial. Os clientes nem questionam porque sabem o que aconteceu”, lembra Juvenal.

Aloisio Santana, gerente do período noturno do motel, conta que o motel, com 53 suítes, usa, em dias cheios, entre 200 e 300 lençóis e toalhas por dia. Ele afirma que lençol e toalha são duas coisas que nunca faltaram, nem mesmo no Dia dos Namorados, o mais movimentado do ano: “Tem que estar preparado”.

Enquanto Aloisio vistoria uma suíte que acabara de ser desocupada, Ladjane Maria da Silva, pernambucana de 42 anos e há quase nove no motel, limpa o chão do quarto, relativamente limpo. Natural de São José da Coroa Grande, ela diz que uma faxina rápida, isto é, quando o casal tem um mínimo de higiene, “consideração e respeito”, leva cerca de 15 minutos apenas. E a demorada? Uma hora e meia. “Era uma suíte pequena, mas deixaram a hidromassagem ligada e transbordou. Como não dá para tirar a cama, tive que passar pano, torcer no balde e jogar para fora.”

Outra queixa de Ladjane são as drogas, em especial maconha: “Já saí até tonta do quarto. Se fosse cocaína era suave, tem gente que esquece um saquinho (calcinhas, Viagra, carteira e relógio Rolex são outros itens deixados que também já foram deixados para trás), mas depois vem buscar porque é caro para eles. Para mim não tem valor, mas para eles têm”. O sorriso ela só abre mesmo quando é questionada como são as praias na sua cidade natal, na divisa com Alagoas. “São lindas.”

O MELHOR CLIENTE DE TODOS? O SOLITÁRIO
Aloisio, Juvenal, Luciana e as demais recepcionistas do motel são unânimes em apontar o perfil do cliente ideal. “São os solitários. Eles entram sozinhos, se divertem da forma como gostam, ficam numa boa e não dão trabalho nenhum”, afirma o gerente da tarde. O gerente da noite concorda: “Ele não enche o saco”. Em um intervalo de 30 minutos na recepção do motel, a reportagem do iG presenciou dois “solitários”, ambos homens de idade já um pouco avançada, dando entrada. “Eles vêm dormir e não reclamam”, relata a recepcionista.

DEZ HISTÓRIAS DE MOTEL

A GOLPISTA E AMANTE DO ENTEADO
“É uma loira bonita de 37 anos, você olha e não diz que é golpista. Quando a gente passa a máquina do cartão para colocar a senha, ela cancela a operação e reimprime a anterior. Nós chegamos, mas, na correria, às vezes passa. Ela fez isso comigo e com outras duas meninas daqui. Fiquei revoltada. Naquele dia eu liguei para todos os motéis da região, passei nome, RG e placa do carro. Não deu nem 15 dias e ela fez de novo, mas em outro motel. A moça de lá ligou aqui e disse que era a mulher que falei. Fui até lá e tive vontade de pegá-la pelo pescoço. Falei para chamar a polícia, mas ela ficou desesperada, estava com o enteado de 19 anos, filho do marido. Ela disse que não tinha dinheiro, aí o enteado foi até a casa do pai, pegou o cartão do pai e pagou. O pai até ligou depois, eles falaram que estavam no supermercado.”

O DETETIVE E A AMANTE
“Aluguei uma suíte para um casal, um senhor e uma jovem. Aluguei a [de número] 15. Em seguida veio outro casal, jamais imaginei que eles conheciam o do carro da frente, e, por coincidência, aluguei a 14 para eles. A mulher da 15 então me liga desesperada falando que tinha alguém batendo na porta, mas que ninguém havia pedido serviço de quarto. Era a mulher do senhor tentando entrar no quarto. O detetive estava no carro.”


Faxineiras enxergam por baixo do portão para ver se o carro tem mais de duas pessoas

O SOLITÁRIO DA XÍCARA

“Tem um que vem sempre, ele é assim, é até constrangedor. Ele pegava uma suíte, levava um monte de revistas pornográficas, ficava no quarto por um bom tempo e pedia o café da manhã. Quando ele ia embora e a gente ia liberar a suíte, a gente via que ele ejaculava na xícara, aí as meninas jogavam no lixo. Até que um dia uma ex-dona falou para separar uma xícara, para mandar a mesma sempre. A xícara é dele agora.”

FEZES PELAS PAREDES

“Uma vez veio um neurocirurgião, um médico renomado de hospitais importantes. Na hora que ele entregou a suíte, ligaram aqui. O quarto estava inteiro melado de fezes. Pedi para a moça da limpeza falar de novo. Ela disse que tinha na parede, maçaneta, cama, em tudo. Não tinha condições de limpar. O gerente ficou horrorizado e falou para cobrar outra diária. O senhor ficou puto. Disse que era constrangedor e me disse o seguinte: ‘Tenho uma reclamação a fazer. A maneira que eu faço sexo não diz respeito a você, a ele [gerente] e a ninguém. Não estou bravo pelo valor, estou bravo pelo constrangimento’. Falei que também era um constrangimento para quem limpa.”



Santinho na porta do armário da recepção. Curiosamente, o armário guarda DVDs com filmes pornôs para os clientes






“AQUILO LÁ É MACHO!”
“Tem uma travesti que vem aqui, ela acabou comigo nesse dia. É uma loira bonita, não parece homem, veio com um cara, mas eu já sabia que não era mulher. Os dois foram para o quarto n° 10. Deu 12 minutos e o cara aparece aqui [a recepção] de carro, sem ela. Só que eu não posso liberar uma pessoa sem que a outra libere porque vai que alguém mata o outro, né? Falei para o moço que a outra pessoa não tinha liberado, ele ficou furioso e disse que ‘aquilo lá é macho’. 

Depois eles voltaram para irem embora, mas ela me deu um cartão sem senha que não era dela. Me recusei a passar, ela começou a me xingar de ridícula, horrorosa, pobre, falou que eu não tinha como ter o 'corpinho' dela.”

“Chamei o gerente. O Aloisio falou que eu estava certa, mas você acha que ela discutiu com ele? Não! Continuou brigando comigo, me xingando de baranga, idiota. No final ela encontrou um cartão e me passou. Eu ia me vingar. O homem estava muito nervoso, pedindo para que eu entregasse logo os documentos. Como ela tinha saído do banco de passageiro para passar o cartão na janela, pensei em entregar o RG do cara e abrir o portão, aí ele deixava ela aqui sozinha. No que terminou a operação, fiz isso. O cara foi embora. Ela ficou ‘ei, ei, ei, ele me deixou sozinha aqui’.”

“MOTEL? VOCÊ ESTÁ DE BRINCADEIRA?"

“Uma vez um cara não estava conseguindo fazer uma ligação e pediu para eu fazer e transferir para ele. Fiz isso. Em seguida ligam aqui, eu atendo, é a voz da mesma mulher para quem eu liguei antes, e ela fica ‘Mykonos o quê?’, ‘você está de brincadeira que aí é motel?’, e desliga na minha cara. O cara então me liga e pergunta se o nosso telefone é restrito (a pessoa que recebe a ligação não consegue identificar o número de quem está ligando), falei que não.”

“Ele então desce na recepção, verde, falando que a gente tinha acabado com a vida dele, que a casa dele tem identificado de chamadas, que não tinha pedido para transferir a ligação. A própria amante disse o contrário, que ele pediu, sim. Fiquei brava. Enquanto a gente fazia essa operação, a mulher, que imagino ser a esposa dele, liga de novo e pergunta como faz para chegar aqui. Falei para ele que era melhor correr porque tinha uma pessoa vindo para cá. Ele só falou para passar rápido o cartão e depois saiu daqui cantando os pneus do carro.”

QUERIDA, ROUBARAM SEU CARRO

“Teve uma mulher rastreada pela empresa do seguro do carro. Ela veio sozinha, era jovem, tinha 21 anos, e muito bonita. Entrou ela e o amante, um jovem bonito também, para um período de três horas. Depois chegou o carro da empresa, disseram que o veículo do cliente deles, um senhor que estava com eles, foi roubado e estava aqui dentro. O Aloisio foi lá e disse que poderia entrar, mas com a presença da polícia. Veio um monte de viatura, umas sete, e aí vem a parte boa. No fim, descobriram que essa menina era casada com o senhor e que eles tinham um filho de dois anos. Eles brigaram, ela foi para a casa da mãe. De madrugada, ele foi para a casa da mãe dela para reconciliar, mas a mãe não deixou ele entrar e disse que a filha estava dormindo. Como a casa não tinha garagem e o carro não estava na rua, ele deduziu que havia sido roubado. Sem querer ele descobriu que estava aqui. Ela saiu do motel, pagou a conta e até falou ‘moça, que cagada’. Daqui eles foram para a delegacia.”

“PELADINHA, COMO NASCEU

Quem conta esta história é Aloisio. “Me pediram para dar uma olhada na descarga que estava disparada. Quando abriram a porta, uma menina, muito bonita, estava ali, peladinha, como nasceu. Aí olho a pessoa na cama, um moreno, dormindo e roncando. Vou dar uma olhada na descarga porque é ruim para a gente, gasta mais água. Estou ali mexendo na descarga, olho para o lado e a mulher está ali, pelada. Minha preocupação não era a descarga, era o cara acordar. Não tem explicação para dar nessas horas, você fica sem reação.”

MORTE NO MOTEL

“A mulher saiu desesperada de roupão, pelada por baixo, gritando por socorro, mas quando chegaram lá, o cara já tinha ido. Entrava carro de polícia a noite toda, vem perícia, vem carro do IML. Ficaram a noite inteira aqui. Foram lá e pegaram o corpo, mas na hora de ir embora, o ‘rabecão’ não passava pelo portão. O carro foi dar ré, o cara até me perguntou se eu queria ver um defunto, falei que não queria ver não!”

“A GENTE TRABALHA MUITO, MAS SE DIVERTE”

Luciana – e Aloisio com algumas participações pontuais – contaram todas essas histórias em um período de poucas horas, e lembre-se que os dois trabalham no motel há anos. A recepcionista de 37 anos reclama do preconceito que as pessoas têm com eles, mas que nessas horas eles se limitam a fazer seus trabalhos. “Isso acontece muito aos finais de semana, os clientes xingam a gente de vagabunda, chama para fazer massagem. Nem ligo mais. É cansativo, mas a gente se diverte. Eu gosto de sábado à noite, só tem gente doida, um mais louco que o outro”, afirma.

O sangue frio das recepcionistas é necessário em situações chatas e outras nem tanto. É o caso de atores famosos frequentando o motel. Luciana conta que alguns tentam esconder o rosto, mesmo após entregar os documentos, mas que outros são simpáticos e dão até autógrafos. Apesar de não ser casada, ela brinca que só perde a linha se o marido aparecer ali com outra: “Perco meu emprego, mas não a minha dignidade”.

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